A Feira Popular "reabriu", como todos os anos se publicita nas notícias. Na verdade, isto significa que o espaço descampado onde a antiga Feira Popular pontificava foi ocupado por mês e meio com um circo, equipamentos de diversão e roulotes, para celebrar a época festiva - uma lufada de ar fresco para os comerciantes destes equipamentos, que enfrentam dificuldades, e que na união fazem a força e aproveitam para dar uma vida temporária a um lugar devoluto. Não sei qual tem sido ou será o volume de frequentadores desta feira temporária. Na verdade (chamem-me careta), não tenho muita vontade de lá passar. E se analisarmos à lupa o cenário, lamento, mas prefiro visitar o Museu de Arte Antiga e os Painéis de Nuno Gonçalves.
Morei desde que nasci, e até aos 8, ao lado desse recinto mítico. Todos os anos via da janela as luzes, a roda gigante, as nuvens de fumo dos restaurantes, os cartazes do Teatro Vasco Santana. Inevitavelmente, éramos frequentadores habituais até porque a tentação era grande para uma criança, os carrinhos de choque um perigo e o polvo com os seus tentáculos rodopiantes um espectáculo tão fascinante como aterrador. A Feira Popular era em si, uma esfera à parte, um mosaico de um género de diversão que teve o seu ponto alto no tempo em que os meus pais eram miúdos e que foi preservado até 2003, altura em que fechou portas. Nessa altura, o fumo era o mesmo. A roda gigante era igual. O algodão doce sabia à mesma coisa. Mas - hélas - o mundo evolui. E mesmo que o encerramento tenha sido motivado por decisões políticas, lembro-me bem que aquele espaço já pouco nos dizia, com as suas diversões ultrapassadas, o poço da morte roufenho, os restaurantes a fazer jantares à descrição por 5 euros. Já lá vão mais de dez anos.
Vejo a Feira Popular, o seu destino e as suas supostas ressuscitações como uma versão gigantesca do comércio tradicional que, sobretudo nesta altura das nossas vidas, carece de clientes. É fácil culpar os factores externos. Mas devia-se pensar também porque é que os mais novos deixaram de entrar e só os mais velhos ainda lá vão. Veja-se este exemplo: tenho, na esquina da minha rua, uma mercearia aberta de segunda à sexta. Os interiores são em madeira, com ar castiço. Os produtos são os essenciais, para além de frutas e legumes. É o estabelecimento comercial mais próximo que tenho de casa. Se já lá entrei? Não. É que o mesmo é iluminado por duas luzes de néon fraquíssimas, e está quase às escuras. O senhor à porta tem cara de poucos amigos e passa a vida cá fora, a fumar cigarros. Era difícil explicar-lhe que bastava adicionar algumas lâmpadas para tornar o local um pouco mais convidativo? Que a postura com que o senhor combate o tédio e a crise não o vão ajudar? Que este género de comércio genuíno até tem procura mas que a imagem que a sua loja passa para fora impede qualquer um de lá entrar? O mesmo se aplica à esmagadora maioria dos cafés da minha zona - mal iluminados, barulhentos, ultrapassados. E não me venham explicar que é só falta de dinheiro para remodelações. As luzes são azuis. As lojas e os restaurantes parecem arcas frigoríficas. Como querem convencer moradores e turistas a entrar, a consumir? Os olhos também comem, nunca essa frase foi tão verdadeira.