Jantar em casa do
Alberto. O Chico escolhe música no iTunes, o Luís e a Rita riem-se a falar de
algo recente, o Duda enche os copos, fazem-se brindes, boa onda.
A Maria vai tirar
cafés. De repente o Duda vira-se para o Alberto e diz a frase mágica começada
por "já viste aquela cena do [inserir video viral aqui]?". Perante a
resposta negativa do Alberto, vira-se para o Chico e diz "mete aí [inserir
busca de youtube]".
A música pára, as
conversas cessam, os copos baixam e de repente faz-se silêncio. A vizinha de
baixo respira de alívio. Silêncio. As keywords do youtube não funcionam, mas o
Duda não desiste. 3 minutos depois, abre um link. Começa a ver, mas afinal não é
aquele que ele tinha visto. Mais 3 minutos e na 14ª página de resultados, lá
encontra o vídeo. O Alberto torce o nariz: "5 minutos?". O Duda insiste: "vale a pena,
vê só isto". O Luís e a Rita já não riem, estão à espera. A Maria volta
com os cafés e vê 5 pessoas em silêncio a olhar para um portátil. Arrisca
perguntar "o que é que estão a ver?", ao que o Duda diz "vê só".
No fim do vídeo, 5
longos minutos depois, a punchline. O Duda ri-se a dizer "tá bué engraçado",
o Alberto sorri sem grande vigor e diz “tá fixe”, o Chico levanta-se para ir à
casinha, o Luís e a Rita voltam à conversa e a Maria pousa a bandeja com os cafés.
Alguém se lembra de voltar a pôr música, mas não interessa. Agora há duas
opções:
A) o Duda toma conta do
portátil e a noite à volta da mesa passa a ser uma noite à volta do computador.
B) o Alberto desliga o
browser perante o resmungar do Duda e não se fala mais em youtube.
Antes de me mudar de
casa, tinha o computador na sala, perigosamente perto da mesa de jantar.
Frequentemente, um encontro de amigos desembocava neste cenário, e apesar de
ter conhecido algumas coisas interessantes, houve sempre algo me incomodou. Mais
incómodo ainda é estar noutra divisão da casa, sem computador por perto e de
repente uma palavra-chave na conversa faz com que alguém diga “mete aí”. Tudo a
olhar para o portátil. Tudo a olhar para o ipad. Tudo a olhar para o iPhone.
Tudo à espera que o motor de busca funcione. Tudo em suspenso.
Não quero passar por
careta. Adoro ter gente em casa e é porreiro partilhar experiências e conteúdos.
É fixe conhecer coisas novas. O on-demand não está só na box, o youtube é o maior
arquivo de vídeo alguma vez existente. Agora não me peçam para gostar de
interromper conversas, raciocínios ou ambientes para ver um mini documentário
que até pode ter 2 minutos, mas que implica, impreterivelmente que toda a gente
se cale religiosamente e fique à espera de uma punchline. E já nem na rua uma
pessoa está a salvo – viva o 4G!
Tenho plena consciência
de que daqui a uns dez anos vamos ter o youtube a passar no cartão multibanco e
já não vamos demorar 5 minutos a descobrir os resultados, vai ser o cartão a
pensar por nós. Mas o conceito de estar à volta de uma mesa sem que alguém puxe
da muleta da internet é demasiado aborrecido para que eu não me farte dele.
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