Monday, February 3, 2014

As Luzes

     A Feira Popular "reabriu", como todos os anos se publicita nas notícias. Na verdade, isto significa que o espaço descampado onde a antiga Feira Popular pontificava foi ocupado por mês e meio com um circo, equipamentos de diversão e roulotes, para celebrar a época festiva - uma lufada de ar fresco para os comerciantes destes equipamentos, que enfrentam dificuldades, e que na união fazem a força e aproveitam para dar uma vida temporária a um lugar devoluto. Não sei qual tem sido ou será o volume de frequentadores desta feira temporária. Na verdade (chamem-me careta), não tenho muita vontade de lá passar. E se analisarmos à lupa o cenário, lamento, mas prefiro visitar o Museu de Arte Antiga e os Painéis de Nuno Gonçalves.

     Morei desde que nasci, e até aos 8, ao lado desse recinto mítico. Todos os anos via da janela as luzes, a roda gigante, as nuvens de fumo dos restaurantes, os cartazes do Teatro Vasco Santana. Inevitavelmente, éramos frequentadores habituais até porque a tentação era grande para uma criança, os carrinhos de choque um perigo e o polvo com os seus tentáculos rodopiantes um espectáculo tão fascinante como aterrador. A Feira Popular era em si, uma esfera à parte, um mosaico de um género de diversão que teve o seu ponto alto no tempo em que os meus pais eram miúdos e que foi preservado até 2003, altura em que fechou portas. Nessa altura, o fumo era o mesmo. A roda gigante era igual. O algodão doce sabia à mesma coisa. Mas - hélas - o mundo evolui. E mesmo que o encerramento tenha sido motivado por decisões políticas, lembro-me bem que aquele espaço já pouco nos dizia, com as suas diversões ultrapassadas, o poço da morte roufenho, os restaurantes a fazer jantares à descrição por 5 euros. Já lá vão mais de dez anos.


     Vejo a Feira Popular, o seu destino e as suas supostas ressuscitações como uma versão gigantesca do comércio tradicional que, sobretudo nesta altura das nossas vidas, carece de clientes. É fácil culpar os factores externos. Mas devia-se pensar também porque é que os mais novos deixaram de entrar e só os mais velhos ainda lá vão. Veja-se este exemplo: tenho, na esquina da minha rua, uma mercearia aberta de segunda à sexta. Os interiores são em madeira, com ar castiço. Os produtos são os essenciais, para além de frutas e legumes. É o estabelecimento comercial mais próximo que tenho de casa. Se já lá entrei? Não. É que o mesmo é iluminado por duas luzes de néon fraquíssimas, e está quase às escuras. O senhor à porta tem cara de poucos amigos e passa a vida cá fora, a fumar cigarros. Era difícil explicar-lhe que bastava adicionar algumas lâmpadas para tornar o local um pouco mais convidativo? Que a postura com que o senhor combate o tédio e a crise não o vão ajudar? Que este género de comércio genuíno até tem procura mas que a imagem que a sua loja passa para fora impede qualquer um de lá entrar? O mesmo se aplica à esmagadora maioria dos cafés da minha zona - mal iluminados, barulhentos, ultrapassados. E não me venham explicar que é só falta de dinheiro para remodelações. As luzes são azuis. As lojas e os restaurantes parecem arcas frigoríficas. Como querem convencer moradores e turistas a entrar, a consumir? Os olhos também comem, nunca essa frase foi tão verdadeira.

Dos Que Voltam


        
Tenho uma prima em segundo grau de quem gosto muito e que nasceu 14 dias antes de mim, colheita de 1982, a geração que apanhou de frente com o "rebenta a bolha", com a palavra começada por C, com o flagelo do desemprego, com o diabo a sete.

Claro que me passou pela cabeça emigrar, como a praticamente toda a gente, mas o caminho nunca se traçou para o fazer e saltar à aventura também nunca me pareceu viável, sobretudo depois do sub-prime ter derrubado a ilusão de que tudo "lá fora" estava coberto de ouro.

Já a minha prima conquistou o seu lugar, primeiro em Inglaterra, depois no Canadá. Esse país é, para muitos, a definição de paraíso: civilizado, não demasiado populado, evoluído, próspero, seguro. Basta ver o recente fenómeno de páginas que enganam por dinheiro muitos daqueles que sonham com o dia em que fogem do seu país sub-desenvolvido para o shangri-lá acima de Detroit.

Com efeito, ela encontrou por lá todas essas características e mais algumas. Os canadianos são, sem dúvida, um excelente povo, com padrões de civismo, vida em comunidade, qualidade de vida e preocupação com o próximo que chegam a ser abstractos por aqui. Mas se no início o entusiasmo é grande, passado um tempo a realidade começa a pesar: a família, os amigos, o lar, o calor, a comida, os risos, a nossa forma de estar, tudo isso ficou a milhares de quilómetros, neste cantinho da Europa. 
Como ela, conheço outros, que pegaram nas suas coisas e partiram em direcção a um sítio onde pudessem realizar aquilo que cá não era possível. E começam seriamente a pensar em regressar. 

As impressões que tenho trocado com quem anda pelo mundo e começa a ter saudades de casa dão-me cada vez mais vontade de cá ficar. Imagino-me num sítio qualquer, longe, a ir e a vir do trabalho, a skypar com a minha namorada e a contar os dias para voltar a descer a Calçada da Graça, ofuscar-me com a luz da manhã nas Portas do Sol, a beber uma mini com quem alinha, com quem gosto de aparvalhar, com quem faz falta. Isso faz-me olhar de outra maneira para o que tenho à minha volta. Para a minha cidade, que mesmo maltratada e desajeitada, é Lisboa. E aquela vontade de me “pisgar daqui para fora”, como tantos já proferiram, evapora-se.


Muito se compara estes emigrantes com os dos anos 60. Diz-se que os de hoje são diferentes: “que não mandam remessas para casa, não constroem a casa na terra de onde vieram, não voltam". Pois os de hoje também são diferentes por outra razão: já não estamos nos anos 60. As realidades são incomparáveis. Já não há polícia política. Já não há, felizmente, ditadura, por mais que alguns lunáticos suspirem pela ideia que fazem dela. E sim, também há gente que quer e que volta para este nosso rectângulo. Que é pobre sim, mas que é nosso. É onde fica aquilo que gostamos e conhecemos. É nele que queremos acreditar. Tanto se fala dos 333 que saem dos país todos os dias. É pedir muito que se comece a falar também dos que voltam?

"Mete Aí"

Jantar em casa do Alberto. O Chico escolhe música no iTunes, o Luís e a Rita riem-se a falar de algo recente, o Duda enche os copos, fazem-se brindes, boa onda.

A Maria vai tirar cafés. De repente o Duda vira-se para o Alberto e diz a frase mágica começada por "já viste aquela cena do [inserir video viral aqui]?". Perante a resposta negativa do Alberto, vira-se para o Chico e diz "mete aí [inserir busca de youtube]".

A música pára, as conversas cessam, os copos baixam e de repente faz-se silêncio. A vizinha de baixo respira de alívio. Silêncio. As keywords do youtube não funcionam, mas o Duda não desiste. 3 minutos depois, abre um link. Começa a ver, mas afinal não é aquele que ele tinha visto. Mais 3 minutos e na 14ª página de resultados, lá encontra o vídeo. O Alberto torce o nariz:  "5 minutos?". O Duda insiste: "vale a pena, vê só isto". O Luís e a Rita já não riem, estão à espera. A Maria volta com os cafés e vê 5 pessoas em silêncio a olhar para um portátil. Arrisca perguntar "o que é que estão a ver?", ao que o Duda diz "vê só".

No fim do vídeo, 5 longos minutos depois, a punchline. O Duda ri-se a dizer "tá bué engraçado", o Alberto sorri sem grande vigor e diz “tá fixe”, o Chico levanta-se para ir à casinha, o Luís e a Rita voltam à conversa e a Maria pousa a bandeja com os cafés. Alguém se lembra de voltar a pôr música, mas não interessa. Agora há duas opções:

A) o Duda toma conta do portátil e a noite à volta da mesa passa a ser uma noite à volta do computador.

B) o Alberto desliga o browser perante o resmungar do Duda e não se fala mais em youtube.

Antes de me mudar de casa, tinha o computador na sala, perigosamente perto da mesa de jantar. Frequentemente, um encontro de amigos desembocava neste cenário, e apesar de ter conhecido algumas coisas interessantes, houve sempre algo me incomodou. Mais incómodo ainda é estar noutra divisão da casa, sem computador por perto e de repente uma palavra-chave na conversa faz com que alguém diga “mete aí”. Tudo a olhar para o portátil. Tudo a olhar para o ipad. Tudo a olhar para o iPhone. Tudo à espera que o motor de busca funcione. Tudo em suspenso. 

Não quero passar por careta. Adoro ter gente em casa e é porreiro partilhar experiências e conteúdos. É fixe conhecer coisas novas. O on-demand não está só na box, o youtube é o maior arquivo de vídeo alguma vez existente. Agora não me peçam para gostar de interromper conversas, raciocínios ou ambientes para ver um mini documentário que até pode ter 2 minutos, mas que implica, impreterivelmente que toda a gente se cale religiosamente e fique à espera de uma punchline. E já nem na rua uma pessoa está a salvo – viva o 4G!


Tenho plena consciência de que daqui a uns dez anos vamos ter o youtube a passar no cartão multibanco e já não vamos demorar 5 minutos a descobrir os resultados, vai ser o cartão a pensar por nós. Mas o conceito de estar à volta de uma mesa sem que alguém puxe da muleta da internet é demasiado aborrecido para que eu não me farte dele.
Um dia mandei um texto para o P3, que foi publicado.
Mandei outros, que não o foram. 
Aqui vão eles.