Tenho uma prima em segundo grau de quem gosto muito e que nasceu 14 dias antes de mim, colheita de 1982, a geração que apanhou de frente com o "rebenta a bolha", com a palavra começada por C, com o flagelo do desemprego, com o diabo a sete.
Claro que me passou pela cabeça emigrar, como a praticamente toda a gente, mas o caminho nunca se traçou para o fazer e saltar à aventura também nunca me pareceu viável, sobretudo depois do sub-prime ter derrubado a ilusão de que tudo "lá fora" estava coberto de ouro.
Já a minha
prima conquistou o seu lugar, primeiro em Inglaterra, depois no Canadá. Esse
país é, para muitos, a definição de paraíso: civilizado, não demasiado
populado, evoluído, próspero, seguro. Basta ver o recente fenómeno de páginas que
enganam por dinheiro muitos daqueles que sonham com o dia em que fogem do seu
país sub-desenvolvido para o shangri-lá acima de Detroit.
Com efeito, ela
encontrou por lá todas essas características e mais algumas. Os canadianos são,
sem dúvida, um excelente povo, com padrões de civismo, vida em comunidade,
qualidade de vida e preocupação com o próximo que chegam a ser abstractos por
aqui. Mas se no início o entusiasmo é grande, passado um tempo a realidade
começa a pesar: a família, os amigos, o lar, o calor, a comida, os risos, a
nossa forma de estar, tudo isso ficou a milhares de quilómetros, neste cantinho
da Europa.
Como ela,
conheço outros, que pegaram nas suas coisas e partiram em direcção a um sítio
onde pudessem realizar aquilo que cá não era possível. E começam seriamente a
pensar em regressar.
As impressões
que tenho trocado com quem anda pelo mundo e começa a ter saudades de casa
dão-me cada vez mais vontade de cá ficar. Imagino-me num sítio qualquer, longe,
a ir e a vir do trabalho, a skypar com a minha namorada e a contar os dias para
voltar a descer a Calçada da Graça, ofuscar-me com a luz da manhã nas Portas do
Sol, a beber uma mini com quem alinha, com quem gosto de aparvalhar, com quem
faz falta. Isso faz-me olhar de outra maneira para o que tenho à minha volta.
Para a minha cidade, que mesmo maltratada e desajeitada, é Lisboa. E aquela
vontade de me “pisgar daqui para fora”, como tantos já proferiram, evapora-se.
Muito se
compara estes emigrantes com os dos anos 60. Diz-se que os de hoje são
diferentes: “que não mandam remessas para casa, não constroem a casa na terra
de onde vieram, não voltam". Pois os de hoje também são diferentes por
outra razão: já não estamos nos anos 60. As realidades são incomparáveis. Já
não há polícia política. Já não há, felizmente, ditadura, por mais que alguns
lunáticos suspirem pela ideia que fazem dela. E sim, também há gente que quer e
que volta para este nosso rectângulo. Que é pobre sim, mas que é nosso. É onde
fica aquilo que gostamos e conhecemos. É nele que queremos acreditar. Tanto se
fala dos 333 que saem dos país todos os dias. É pedir muito que se comece a
falar também dos que voltam?
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